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sábado, 23 de setembro de 2017

"Quimicofobia"


Não pretendo apresentar-vos uma teoria da conspiração, mas sim alguns exemplos de que esta ideia de que os "químicos" são nocivos para a saúde não é de todo inocente.

Reforço ainda que esta publicação não tem por objetivo denegrir as marcas de produtos naturais, já que muitas empresas acreditam verdadeiramente neste conceito, com toda a legitimidade, e que nem todas embarcam em marketing desonesto. Ao contrário deste mesmo marketing, peço que tomem cada um dos exemplos que vos cito como sendo isso mesmo, um exemplo, e não uma generalização.


Existem produtos "sem químicos"?

Resisti muito em abordar de novo esta questão, mas este post tem um intuíto informativo e receio que algumas das pessoas que o irão ler não estejam cientes do significado desta expressão. 

Não existem produtos sem químicos, já que toda a matéria é composta por químicos. 

E a quem já tem esta noção, mas ainda assim acredita que a presença de compostos de origem sintética pode de alguma forma ser prejudicial para a saúde, deixo também uma mensagem de tranquilização. A origem de um ingrediente; seja ela sintética ou natural, não está minimamente relacionada com a sua segurança ou eficácia.


Quais são as origens do medo dos químicos?
  • Marcas emergentes
Em cosmética, este tipo de desinformação acaba por beneficiar estas pequenas marcas que vêem no medo dos consumidores e na simpatia por o que designam de "natural" uma oportunidade para afirmar o benefício dos seus produtos face aos produtos das grandes marcas. 

Caso contrário, não é fácil convencer os consumidores a pagar umas tantas vezes mais por um sérum ou hidratante quando a concorrência dispõe de produtos semelhantes, mais baratos, e muitas vezes com eficácia superior.

Um dos exemplo mais flagrantes, e que não advém diretamente de uma marca, é o Environmental Working Group (EWG). Trata-se de uma associação sem fins lucrativos, E que recebe donativos de empresas que comercializam "orgânicos" e certifica alguns produtos como sendo "verificados" pela EWG. Acontece que a EWG emite frequentemente opiniões pouco rigorosas e ainda menos fundamentadas acerca do potencial tóxico de produtos cosméticos e ingredientes isolados; mas também relativamente a alimentos, pesticidas, água, etc. Esta organização é uma das principais responsáveis pelo medo que é incutido nos consumidores, e que acaba por lançar autênticas "tendências" daquilo que "não devemos consumir".


  • Comunicação social
O "clickbait" (ou a "caça aos cliques") é um problema grave, e que só gera desinformação. E essa prática é especialmente usada em relação aos produtos cosméticos, quer por meios de comunicação que são patrocinados por empresas contendo produtos "naturais", quer pela má interpretação de artigos científicos relativos à segurança dos ingredientes e produtos cosméticos.

Este último ponto é crucial para a instalação de todas estas polémicas, já que tanto os jornalistas como os consumidores têm uma grande dificuldade em interpretar os resultados de estudos clínicos e análises de segurança. 

Há várias interpretações que são feitas de forma errada, e para as quais vos deixo alguns exemplos: Os resultados de estudos realizados em ratinhos não podem ser extrapolados para o ser humano, até porque normalmente são utilizadas quantidades ou vias entrada no organismo que não podem ser comparadas com aquele que é o uso normal dos produtos cosméticos. Por outro lado, não é possível estabelecer relações de causa-efeito entre a presença de determinada substância no nosso organismo e a causa de uma doença, como foi feito com os parabenos.

  • Comunidade
Existe muita desconfiança relativamente às grandes empresas, quer na indústria cosmética, farmacêutica, têxtil ou alimentar. Mas se por um lado todas estes indústrias têm como principal objetivo o lucro, também é verdade que todas elas são reguladas e têm a obrigação de cumprir a legislação dos países onde os seus produtos são comercializados.

Numa outra perspectiva, é também tentador culpar estas indústrias por problemas de saúde que acontecem na nossa vida e para os quais não encontramos uma causa. A dificuldade na interpretação correta dos estudos científicos e da avaliação do que realmente apresenta um risco para a nossa saúde é também muito relevante quando se culpa a substância X ou Y pelo aparecimento de um cancro, doença degenerativa, etc.

Assim, quando se junta a desconfiança na indústria cosmética aos medos de cada pessoa, e que são totalmente legítimos, surgem muitas vezes boatos que se disseminam pelas redes sociais e provocam crenças infundadas na nossa sociedade.


"Greenwash"

Curiosamente, e embora o "medo dos químicos" tenha começado por beneficiar as pequenas empresas, atualmente são as grandes multinacionais quem mais beneficia com este fenómeno. E assim tem sido há muitos anos, mas especialmente desde que as redes sociais começaram a influenciar tão brutalmente as opiniões dos consumidores. 

Hoje em dia, quando vamos ao supermercado, será difícil encontrar um produto que não tenha o extrato da planta X ou Y, preferencialmente exótica; e que tem inúmeras ações biológicas (nenhuma delas minimamente documentada em publicações científicas independentes). Normalmente esses mesmos extratos encontram-se nos últimos lugares da lista de ingredientes, o que significa que a sua concentração naquele produto é muitíssimo baixa.

Mais recentemente, encontramos também gamas inteiras com percentagens de ingredientes "naturais" na ordem dos 90% (sendo que provavelmente mais de 50% do produto é constuído por água... Mas justça seja feita, há certificações que "descontam" a água no cálculo da percentagem de ingredientes naturais). Ora, o que estas marcas não dizem, é que consideram como sendo "natural" toda e qualquer molécula que pode ser encontrada na natureza. No entanto, todos os ingredientes utilizados na produção desses cosméticos provêm da indústria química. E não poderia ser de outra forma, não só porque é imensamente mais barato para quem produz (e por isso também mais barato para quem compra); mas sobretudo porque só usando ingredientes provenientes da indústria química é possível ter um grau de pureza das matérias primas que garanta a segurança e eficácia do produto cosmético final.

É possível divulgar produtos "naturais" quando na verdade só contêm meia dúzia de extratos vegetais adicionados? Sim, sem qualquer problema. Porque não há qualquer legislação que defina o que é um produto "natural"; e também porque a esmagadora maioria dos consumidores não faz a mínima ideia de como distinguir produtos constituídos apenas por ingredientes naturais (a menos que os façam em casa) de produtos contendo mistura de ingredientes naturais e sintéticos.


Os produtos "naturais" podem ser problemáticos?

Princípios da cosmética estéril, Pierre Fabre
Sim, tanto em termos de perda de eficácia como em relação à ocorrência de efeitos adversos. E tal como expliquei no primeiro ponto isto poderá acontecer na mesma proporção dos produtos sintéticos. Mas no caso dos "naturais" podemos ter um risco adicional se a premissa "sem químicos" for levada demasiado a sério. Deixo-vos alguns exemplos:

Existem produtos sem conservantes no mercado que são absolutamente seguros, e devem a sua conservação a tecnologias de embalamento muito especiais. Contudo, nem sempre é assim. Exemplo disso é um caso ocorrido na Arábia Saudita, em que um champô para bebé com um sistema conservante deficiente, e contaminado, provocou 1 morte e 13 outras infeções.

Por outro lado, se pensarmos em alergias, é importante mais uma vez lembrar que o nosso corpo não é capaz de saber se determinado ingrediente é ou não natural. Mas para quem sofre frequentemente de sensibilidade a produtos cosméticos, o primeiro ingrediente com o qual se deve preocupar é o perfume. Ora, uma grande parte dos perfumes que existem nos nossos produtos cosméticos são de origem natural, e muitos desses produtos de origem natural contêm mesmo quantidades generosas de óleos essenciais, cujo potencial irritante é dos maiores que podemos encontrar no que toca a ingredientes cosméticos. Por isso, se usarmos óleos essenciais puros ou fracamente diluídos na pele, o risco de irritação ou alergia é muito superior ao da maioria dos produtos que não os contêm, incluindo os produtos de origem sintética.

É óbvio que nenhum destes exemplos deve ser uma generalização daquilo que podemos esperar de todos os produtos "naturais". No entanto, é preciso a segurança dos consumidores deve estar acima de qualquer negócio.

Quando se fala de ciência raramente há respostas de sim e não. Há hipóteses, probabilidades, e riscos. Mas se alguma vez tiverem dúvidas acerca da segurança dos produtos que utilizam; talvez não seja boa ideia confiar em alguém que vos quer vender algo semelhante, certo? ;)

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