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domingo, 11 de fevereiro de 2018

Diz que disse| Cosméticos mais caros = Mais qualidade?


Quando comecei a escrever esta publicação estava longe de imaginar a dimensão iria ter...  Por ser um assunto tão complexo, torna-se difícil de abordá-lo sem correr o risco de esquecer algum ponto relevante; ou ainda de ser injusta para com algum produto em particular. Talvez por isso, este post está "no forno" há quase 2 anos...

Pensei em dividi-lo em duas partes, tal como já faço em algumas situações, mas achei que para este tema em particular não fazia sentido. Acaba por perder-se o "fio conduto" que é tão importante para perceber esta questão como um todo.

Por isso, decidi desconstruir este tema apresentando alguns dos pontos de que é que dependem tanto a eficácia como o preço dos produtos cosméticos, mencionando exemplos em que na minha opinião pessoal o investimento se possa de facto justificar. No final, deixo ainda umas dicas que poderão ajudar nas vossas compras futuras :)


De que depende a eficácia de um produto cosmético?

A resposta a esta pergunta não se limitará aos pontos que vos apresento, e para cada produto em particular poderá haver outros fatores a ter em conta aquando da sua avaliação.

Contudo, e em linhas gerais; existem 5 pontos que podem determinar a eficácia de um produto cosmético:

  • Características dos seus ingredientes
Quando falamos de cométicos de "cuidado" (a palavra tratamento está reservada aos medicamentos...), os ingredientes ativos de que a indústria dispõe e que têm eficácia comprovada para as diversas finalidades a que os cosméticos se propõem são limitados, e nem sempre se encontram em concentrações efetivas.

Por isso, é importante conhecer os ingredientes que melhor atuam sobre cada tipo e preocupação que possam ter com a de pele ou cabelos; e preferir produtos em que esses ingredientes se encontrem em concentrações adequadas. Esta última condição é talvez a mais difícil de garantir, uma vez que nem sempre essas concentrações são divulgadas; mas acredito que com o sucesso de marcas como a The Ordinary ou Beauty Pie o paradigma tenda a mudar.

No que toca aos produtos de maquilhagem, as particularidades dos diversos ingredientes também condicionam a pigmentação, facilidade de aplicação, tolerância, textura, conforto, e durabilidade do produto final. Contudo, neste tipo de produto não fará tanto sentido procurar por ingredientes específicos no que diz respeito ao acabamento; já que este dependerá fundamentalmente da conjugação dos mesmos.

  • Capacidade de penetração do produto
Este ponto aplica-se principalmente em relação aos produtos de cuidado da pele e a alguns capilares; uma vez que a maquilhagem por exemplo não deverá ultrapassar a sua superfície. 

De nada vale ter os melhores ingredientes se estes não chegam ao local onde devem atuar. Isto depende de muitos fatores, entre os quais a espessura e condição da própria pele, e para isso há até ingredientes que têm como função aumentar a penetração de outros constituintes da fórmula (etanol, polietilenoglicol, ureia, etc.). 

Contudo, e no que toca aos produtos cosméticos; a capacidade de penetração dos ingredientes ativos depende também largamente do tamanho e das características fisico-químicas de cada ingrediente, sendo que do ponto de vista da legislação à qual estão sujeitos os produtos cosméticos deverão destinar-se apenas ao cuidado/limpeza/embelezamento da epiderme, cabelos, unhas ou orgãos genitais externos... Mas isso é uma outra história!

Assim, e se por um lado há ingredientes que têm efeitos notáveis quando aplicacos em procedimentos estéticos ou em medicamentos; não podemos extrapolar os resultados que estes ingredientes têm nessas condições tão específicas para a realidade dos produtos cosméticos.

O ácido hilaurónico ou o colagénio, por exemplo; são muito eficazes no preenchimento das rugas quando injetados diretamente abaixo da epiderme. No entanto, e por se tratarem de moléculas de grandes dimensões; quando são aplicadas à superfície da pele não serão absorvidas tão profundamente, ou pelo menos isso não ocorrerá numa grande proporção. Por isso, em produtos cosméticos destinados ao combate do envelhecimento, os produtos contendo colagénio e ácido hialurónico são incapazes de reocupar os locais da pele onde fazem falta para lhe proporcionar firmeza e preenchimento. Isto não invalida o facto de estas moléculas terem um efeito humectante (hidratante), o que por si só pode dar um efeito temporário de preenchimento da superfície da pele.

Imagem de Heimat
Por outro lado, também a conjugação de todos os ingredientes do produto final é determinante para uma boa penetração dos ativos.


Uma formulação que contenha vitamina C, mas não se encontre a um pH suficientemente ácido impede que esta molécula ultrapasse as camadas superiores da epiderme. Desta forma, não se tira o maior partido dos benefícios deste ingredientes.


Normalmente é difícil saber se o conjunto de ingredientes está corretamente conjugado, sendo que neste sentido só poderemos minimizar o risco de usar produtos ineficazes optando por marcas conceituadas. Assim, na maioria dos casos a nossa atenção deverá concentrar-se sobre as propriedades e concentrações dos ingredientes ativos.

  • Conjugação de ingredientes
A conjugação de determinados ingredientes pode aumentar ou diminuir a eficácia do produto final, e existem alguns exemplos nesse sentido:

As vitaminas C e E, por exemplo, têm maior poder antioxidante quando utilizadas em conjunto quando comparadas com o uso isolado de qualquer uma delas. Sabe-se ainda que a adição do ácido ferúlico a estes ingredientes pode incrementar a fotoproteção.

Por outro lado,

A veiculação da vitamina C pura (ácido ascórbico) num produto com base aquosa exige alguma "manobra" tecnológica para proteção deste ingrediente (encapsulação, recurso a embalagem com características especiais, etc); sob pena de a vitamina C se oxidar e de o produto se tornar inativo.

Não são muitos os caso de interações negativas, e quando elas existem os próprios formuladores tê-las-ão em atenção de uma forma geral

    Por muito requintados que pareçam, os boiões e embalagens têm uma elevada superfície de contacto com o exterior; e por isso devem ser evitados sempre que possível; já que permitem o contacto dos produtos com o  ar, impurezas e luz. É verdade que na mairia dos casos as formulações dos produtos estarão "preparadas" para isso contendo mais conservantes, recorrendo à encapsulação de ingredientes mais sensíveis, entre outras opções..

    No entanto, e a menos que a marca especifique uma forma de ultrapassar esta questão; certamente não vão querer pagar por um produto em boião cuja formulação contém ingredientes ativos que se possam degradar por oxidação ou contacto com a luz/oxigénio.

    São exemplo disso ingredientes com propriedades antioxidantes (que oxidam em contacto com os radicais livres atmosféricos e com o auxílio da luz); ou os retinóides, que são sensíveis à radiação.

    • Características de quem o utiliza
    Por um lado, a eficácia de um produto cosmética não deveria depender significativamente da pessoa que o usa. Contudo, não nos interessa que um determinado produto seja suportado por um estudo que afirma comprova a sua eficácia; quando não a conseguimos sentir.

    Imagem de Bruce Plante
    Isso pode acontecer por vários motivos, e um dos principais será a  nossa "necessidade" relativamente àquele produto, sobretudo se falarmos em algo que terá um efeito ótico; como é por exemplo um hidratante.

    Não é difícil  perceber porque é que uma pele desidratada sentirá uma maior diferença ao usar um bom hidratante do que uma pele hidratada. Também não será de estranhar que um creme com ação refirmante tenha um efeito muito mais notório em alguém cuja pele apresente flacidez. Em contrapartida, alguém que apresente uma pele seca poderá até sentir desconforto utilizando um produto de acabamento matificante.

    Para dificultar ainda mais a situação; existe também uma percepção da eficácia diferente entre as pessoas, dependendo do seu grau de exigência em relação ao efeito dos produtos cosméticos. Conhecem aquela pessoa que adora todos os produtos que experimenta; e para quem tudo faz milagres? Em contrapartica, conhecerão também aquela pessoa que diz que os produtos cosméticos são todos uma "aldrabice"!

      De que depende o preço final?

      O preço do produto pode variar com vários fatores, entre os quais:

      • Preço e a concentração dos vários ingredientes 
      Imagem de DR. JACKSON'S
      Foquemo-nos apenas nos ingredientes ativos (coitadinhos dos excipientes...): a maioria dos ingredientes de eficácia comprovada não eleva significativamente o preço do produto final. Exemplo disso é a marca The Ordinary (juro que a DECIEM não me paga!); que dispõe de uma panóplia de produtos contendo estes ingredientes a preços bastante reduzidos.

      No entanto, alguns ingredientes exóticos, como extratos de plantas raras, óleos essenciais, ou moléculas desenvolvidas e patenteadas por uma determinada marca poderão encaracer bastante a formulação final, sem que muitas vezes lhe acrescentem uma eficácia mensurável. Isto é especialmente relevante para os extratos de plantas; que consistem em misturas diluídas de diversos compostos presentes em partes especóficas da planta original. Embora alguns desses compostos presentes na planta ou conjunto de todos eles possa ser benéfico para a pele, cabelos ou unhas; a concentração de cada composto no próprio extrato é geralmente baixa; sendo ainda mais reduzida num produto cosmético final.

      Por último, é importante ter em conta o poder negocial da marca em questão. Naturalmente as marcas pequenas terão uma menor capacidade para negociar os preços dos ingredientes e todos os materiais que utilizam para a produção de produtos cosméticos; o que torna os seus produtos  bastante mais caros. Esta questão é ainda mais relevante se utilizarem ingredientes ou métodos de produção que em todo o caso já seriam dispendiosos. Não é à toa que a marca acima mencionada usa geralmente um/dois ingredientes ativos por produto.

      • Embalagem
      O preço dos materiais que constituem a embalagem também se pode repercutir no valor fnal do produto. Felizmente, nem sempre as embalagens que melhor preservam o seu conteúdo são as mais caras, e por vezes este aumento de preço pode dever-se exclusivamente a critérios estéticos.

      Isto é especialmente notório nas marcas de perfumaria, e também em algumas marcas vendidas em farmácia, cabeleireiro ou clínicas de estética/spas.

      • Posicionamento da marca
      A cada marca corresponde um posicionamento no mercado, que para além do custo da produção do produto dita também:

      • O local onde a marca pode ser vendida;
      • A gama de preços em que os seus produtos se insere;
      • A percentagem de orçameno que essa mesma marca dedica a publicidade/comunicação nos mais diversos meios disponíveis (TV, revistas, redes sociais, influencers, mupis, etc.)
      (Pessoas do marketing, sintam-se à vontade para me corrigir se estiver errada!)

      Isto explica em parte porque é que marcas que pertencem à mesma empresa e cujos produtos têm muitas vezes formulações semelhantes cobrem preços tão diferentes no supermercado, na farmácia, cabeleireiro ou perfumaria.

      A cada posicionamento corresponde um consumidor específico; e é também importante reconhecer que há consumidores que priveligiam verdadeiramente aquilo que consideram ser uma experiência de luxo nos seus produtos cosméticos.


      Quando devo investir?

      Depois desta loooonga exposição; claro está que a resposta a esta pergunta não será a mesma para todas as pessoas.

      No entanto, e dependendo de cada orçamento e personalidade; há alguns critérios que podem ser tidos sem conta na escolha dos nossos produtos:
        Imagem de Shiseido
      • Priveligia produtos de marca?
      Isto pode acontecer quando valorizamos a fragrância, textura, aspeto, ou simplesmente quando temos simpatia pela ideologia e valores de uma determinada marca. Se pode investir e a marca do produto é importante para si, essa é uma opção individual!

      No entanto, e se pretende também ter bons resultados, será importante confirmar tambémque esse produto contém ingredientes eficazes para o seu tipo/preocupação com a pele, que estes se encontrarão em concentrações efetivas, e que a embalagem não prejudicará a sua estabilidade.

      • Alguns produtos de maquilhagem...
      Os produtos de cobertura para pele, como corretores, bases de maquilhagem ou pós poderão justificar um maior investimento. Isto tem a ver com a maior variedade de pigmentos de que as marcas mais caras dispõem, e que permite que estes produtos se aproximem mais do tom de pele natural de cada pessoa. Por outro lado, podem também ter um melhor o acabamento e durabilidade.

      Já em relação a sombras de maquilhagem, batons, delineadores ou blushes a qualidade pode mesmo ser muito variável, e nesse caso a cor pretendida poderá ser um bom fator de "desempate" entre um produto mais caro ou económico.

      Felizmente, nos últimos anos a tecnologia tem evoluído significativamente; o que torna possível encontrar produtos de maquilhagem muito bons a preços cada vez mais acessíveis.


      • Procura ingredientes e tecnologias que são naturalmente mais caros?
      Nesses casos, o preço que o fabricante paga também se refletirá no produto final. Mas se tem boas razões para gostar especficamente desse ingrediente, ou se esse ingrediente for promissor; poderá ter um bom motivo para investir!

      • Tem uma pele particularmente sensível
      Não quer dizer de forma alguma que os produtos mais baratos sejam sempre mal tolerados. No entanto, quem tem más experiências com a maioria dos produtos cosméticos que utiliza poderá ter que optar por comprar todos os seus produtos em gamas adaptadas para pele sensível, e que estão mais presentes em farmácias ou perfumarias (a Clinique, em particular).

      Algumas gamas para pele sensível poderão ser mais caras do que as gamas de supermercado; e em algumas situações poderão até ser mais caras do que gamas similares de farmácia:

      Nos casos em que não são utilizados conservantes, por exemplo; é preciso utilizar de materiais de embalagem e métodos de produção especiais, o que torna o produto final mais dispendioso.

      Também no cuidado das peles sensíveis o avanço da tecnologia tornará esta diferença de preço cada vez menos relevante.


      Há formas de escolher melhor?

      Imagem de John McPherson

      Claro que sim!

      Naturalmente, haverá sempre algum espaço para experiências (...que podem ser boas!), mas grande parte das vezes (e cada vez mais), é possível prever qual o produto que se adequa melhor às necessidades de cada um.

      Deixo aqui algumas dicas:

      • Ter em mente aquilo que é (realmente) necessário
      Todos temos uma rotina de cuidados de pele, cabelo e maquilhagem mais ou menos fixa. Essa rotina depende do nosso tipo de pele/cabelo e eventuais preocupações associadas, mas também dos nossos gostos pessoais. Podemos por exemplo começar o dia limpando a pele com um gel, aplicar um sérum e completar o cuidado com um protetor solar, uma base de maquilhagem e um batom; ou simplesmente limpar o rosto com água e sair para a rua (o que desaconselho vivamente...).

      Por isso, antes de comprar qualquer produto (sobretudo se for caro) é importante refletir acerca da nossa rotina, ou de uma nova  rotina que queiramos implementar; e só depois decidir se esse produto é realmente importante e vai ser usado.

      (Como quem diz: não comprem sombras de maquilhagem em azul turquesa se nem sequer utilizam nudes... Quem nunca?)

      • Ler o rótulo com atenção, e se necessário consultar a lista de ingredientes
      Desta forma podemos escolher os produtos mais eficazes para cada tipo ou preocupação de pele, tendo em conta as suas alegações (aquilo que o produto "diz" fazer) e dando prioridade àqueles ingredientes ativos que sabemos serem mais eficazes para cada situação. 

      Geralmente os ingredientes mais relevantes estão devidamente destacados na embalagem.

      Mas para além de ser necessário perceber em que forma química estão (porque pró-retinol e retinol não são uma e a mesma coisa...), muitas vezes opta-se por referir os ingredientes mais "afamados", em detrimento de outros ainda mais interessantes (não é á toa que o ácido hialurónico é sempre o rei, mesmo que a fórmula tenha um boa concentração de niacinamida). Nesses casos, uma leitura atenta da lista de ingredientes pode até surpreender-nos pela positiva!

      • Procurar "reviews" na internet, ou pedir opiniões junto de pessoas de confiança
      Não é de todo um método infalível, mas pode funcionar como critério de desempate entre 2 produtos ou em caso de indecisão se devemos comprar um determinado produto. Esta estatégia é tanto mais válida quanto mais parecida connosco for a pessoa a quem pedimos opinião, seja em relação ao tipo e/ou eventuais preocupações de pele, seja no que toca às preferências pessoais. No caso da maquilhagem, a comparação do tom e subtom da pele poderá também ser um ponto relevante.

      Não faz sentido comprar um leite de limpeza de rosto acerca do qual lemos maravilhas, quando na verdade preferimos usar produtos em gel; nem serve de muito um hidratante para pele seca (falta de lípidos) quando a nossa pele é naturalmente oleosa (com brilho excessivo, pontos negros, poros dilatados) e apenas se encontra desidratada (falta de água, que pode resultar em descamação, sensação de repuxar, etc)... 

      Se gostam de basear-se em reviews, é igualmente importante perceber se se trata de conteúdo pago ou se a pessoa em questão vende a marca, e nesse caso recomendo tomar a opinião em questão com "um grão de sal".

      Tudo isto pode parecer óbvio... Mas quem nunca se entusiasmou com uma review e comprou um produto completamente "ao lado", que atire a primeira pedra!

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